Doença renal crônica e os distúrbios respiratórios do sono

A maioria dos pacientes com doença renal crônica (DRC), dialíticos ou não, tem alta prevalência de distúrbios do sono. Os problemas mais comuns são a insônia, a síndrome das pernas inquietas e os distúrbios respiratórios do sono (DRS). Dentre os problemas noturnos, os DRS, principalmente a apneia do sono (paradas respiratórias rítmicas geralmente associadas ao ronco) é amplamente reconhecida como fator impactante na mortalidade e na gênese de eventos cardiovasculares.

A prevalência de DRS em pacientes renais crônicos pode ser acima de 50%. As causas dessa associação não estão bem definidas pela literatura, mas alguns pontos já são bem claros:

  1. fatores que levam ao agravamento da função renal como diabetes e hipertensão arterial também estão associados aos DRS;
  2. a presença de marcadores inflamatórios na DRC também contribui para a gênese dos DRS;
  3. na insuficiência renal crônica, a acidose metabólica causa resposta ventilatória excessiva do sistema neurológico gerando hiperventilação e hipocapnia. Esses estímulos são associados à perda do controle respiratório e ocorrência de eventos como apneia e hipopneia centrais;
  4. o excesso de líquido na circulação sanguínea (hipervolemia) prejudica os pacientes durante o sono. Isso ocorre quando passamos da postura vertical para horizontal (para dormir), pois gera o “edema postural”. Esse último é uma consequência do deslocamento do volume de líquido sanguíneo da região inferior do corpo (pernas e abdome) para a região superior (cabeça e pescoço). O excesso de líquido na região superior é reconhecidamente um fator importante para agravamento dos DRS.

O impacto mais severo da apneia do sono em pessoas com DRC é observado na oxigenação sanguínea. O nível da oxigenação do sangue arterial pode facilmente atingir valores baixos (hipoxemia) e perigosos por longos períodos (ex: SpO2 de 80%). Esse último, per si, é causa de alterações cardiovasculares significativas e eleva o risco de infarto, arritmias cardíacas e insuficiência cardíaca. Outros eventos, como acidente vascular cerebral (AVC) e doenças neurodegenerativas também têm maiores chances de se desenvolverem.

Além disso, os rins estão entre os órgãos mais perfundidos do corpo, recebendo 1/4 do débito cardíaco no repouso. A submissão do sistema renal à hipoxemia (causada pela apneia) pode determinar danos ao órgão e acelerar a deterioração da função renal. Para aqueles pacientes com diagnóstico de insuficiência renal, a apneia do sono pode ser bastante prejudicial à estabilidade e ao processo de reabilitação.

Os problemas noturnos impedem o início do sono ou mesmo a manutenção do sono reparador, resultando em fragmentação durante boa parte da noite. Esta última é fonte de estresse cardíaco, e contribui para deterioração da qualidade de vida dos pacientes, principalmente, daqueles submetidos à diálise.

A influência da apneia do sono na morbi/mortalidade dos pacientes com insuficiência renal é desconhecida. Contudo, a literatura já estabelece a forte influência dos eventos cardiovasculares na mortalidade dessa população. Por isso, a detecção e o tratamento apropriado da apneia em pacientes renais, dialíticos ou não, têm importância fundamental no desfecho clínico no médio e longo prazo.

De forma semelhante à população geral, o tratamento da apneia do sono em pacientes renais é realizado com sucesso com CPAP (Continuous Positive Airway Pressure). Há estabilização da oxigenação noturna, melhoria da qualidade do sono (redução do sono superficial e aumento do sono profundo) e redução da sonolência diurna. Outras medidas também são sugeridas como perda de peso, prática de exercícios e abolição do consumo de bebidas alcoólicas.

Fontes: Curr Hypertens Rev. 2016; 12(1): 43–47 & Sleep Med Rev. 2003; 7 (2): 131-143.

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